Mapa da Energia

Mapa da Energia é um espaço para explorar as forças sutis que movem a vida — do corpo à alma, do físico ao espiritual. Aqui, cada texto é um convite para compreender, harmonizar e transformar a sua energia em consciência, equilíbrio e criação.

  • Dizem que o desejo é chama. Pequena ou grande, discreta ou ruidosa, mas sempre acesa dentro de nós. Às vezes arde como faísca, quase invisível, outras vezes se impõe como fogueira em noite sem lua. O desejo nos move, nos empurra para além do que somos hoje. É a energia que faz alguém levantar da cama com uma ideia na cabeça e um fogo no peito.

    Mas há algo maior que o desejo. Há uma Fonte — alguns chamam de Deus, outros de Energia Universal, mas todos a reconhecem quando o coração se aquieta. É a mesma energia que sustenta o nascer do sol sem pedir aplausos, que faz a semente se abrir em silêncio, que mantém o coração batendo mesmo quando a mente se perde em preocupações.

    O desejo, por si só, pode ser turbulento. Quer chegar, conquistar, tomar posse. A Fonte, não: é calma, infinita, paciente. Quando o desejo se conecta com a Fonte, ele se transforma em força criadora, em caminho iluminado. Já não é apenas “eu quero”, mas “eu posso, porque Ele me fortalece”. É nesse encontro que nasce o milagre da vida cotidiana: o emprego conquistado, a cura inesperada, o abraço que reconcilia, o sonho que parecia distante e se aproxima como barco no horizonte.

    Viver é aprender a ajustar a chama do desejo ao sopro da Fonte. Se o desejo tenta correr sozinho, esgota-se. Se a Fonte é esquecida, perdemos direção. Mas quando um se rende ao outro, encontramos o compasso perfeito.

    E então entendemos, não apenas com a mente, mas com a alma, a força do versículo que atravessa séculos e chega até nós: “Tudo posso naquele que me fortalece.” Não é arrogância, é confiança. Não é soberba, é rendição. É o reconhecimento de que o desejo, por mais humano que seja, encontra na Energia Fonte o seu verdadeiro poder.

    E, no fundo, é isso que nos move todos os dias: o diálogo silencioso entre a chama que arde dentro de nós e o sopro divino que nunca deixa de nos sustentar.

  • Fredson Delgado

    Você já cruzou com um poste humano? Não, não estou falando de alguém alto, magro e parado na calçada esperando um ônibus. Falo do poste do desejo — uma figura peculiar que habita banheiros públicos de shoppings, estações de metrô e afins. Ele está lá, imóvel, encostado no azulejo frio, com o olhar meio perdido e meio malicioso, esperando que alguém passe para, digamos… acender a luz.
    A primeira vez que me deparei com um desses, achei que era apenas um cidadão distraído esperando alguém sair da cabine. Mas bastou um olhar mais longo da parte dele — e um recuo apressado da minha — para entender que ali não se tratava de fila, e sim de frequência vibracional. Algo estava pulsando, mas não era o encanamento.
    O poste do desejo é um fenômeno urbano. Não fala muito, não se move demais, mas está sempre ali, firme, como se esperasse o toque mágico que ativa a tomada da libido. Em geral, não é sobre prazer partilhado, nem sobre afeto. É sobre uma energia que precisa sair de algum jeito, por qualquer fresta, mesmo que seja a de um cubículo de banheiro público.
    Mas calma — essa crônica não é um manifesto moralista, nem uma campanha contra a libido alheia. Longe disso. O desejo é legítimo, lindo, criativo e potente. O problema é quando ele perde o GPS e começa a dar sinal onde não deve. Quando a energia sexual, em vez de virar arte, dança, afeto ou criação, se transforma em gesto apressado e assédio disfarçado de “convite silencioso”.
    O poste do desejo, no fundo, é um sintoma. Sintoma de repressão, de solidão, de falta de espaço seguro para ser quem se é. De uma sociedade que empurra muitos homens para as sombras, onde o desejo só pode se manifestar em esquinas escuras ou mictórios mal iluminados. Alguns viraram postes por compulsão. Outros, por hábito. E há os que só conhecem esse modo de se relacionar com o próprio corpo: rápido, escondido, e sem alma.
    É curioso (e um pouco triste) como a energia sexual, que poderia estar alimentando sonhos, relações saudáveis, projetos de vida — acaba se esvaindo no azulejo do banheiro, silenciosa e solitária. Não por maldade, mas por desorientação. Por falta de orientação emocional, de escuta, de acolhimento.
    Por isso, talvez esteja na hora de criarmos algo além de placas de “favor manter o banheiro limpo”. Quem sabe uma campanha: “Transforme seu fogo em poesia, não em piscadelas no banheiro”. Ou um curso: “Autocuidado e erotismo com dignidade”. Ou até um mantra: “Desejo não é sujeira — é luz, mas precisa de direção.”
    Porque, no fim das contas, não queremos apagar a luz do poste. Queremos apenas que ela ilumine os caminhos certos. Que cada homem, poste ou não, descubra que sua energia sexual é sagrada — e que há lugares melhores para acendê-la do que o corredor entre o vaso sanitário e a pia.