Fredson Delgado
Você já cruzou com um poste humano? Não, não estou falando de alguém alto, magro e parado na calçada esperando um ônibus. Falo do poste do desejo — uma figura peculiar que habita banheiros públicos de shoppings, estações de metrô e afins. Ele está lá, imóvel, encostado no azulejo frio, com o olhar meio perdido e meio malicioso, esperando que alguém passe para, digamos… acender a luz.
A primeira vez que me deparei com um desses, achei que era apenas um cidadão distraído esperando alguém sair da cabine. Mas bastou um olhar mais longo da parte dele — e um recuo apressado da minha — para entender que ali não se tratava de fila, e sim de frequência vibracional. Algo estava pulsando, mas não era o encanamento.
O poste do desejo é um fenômeno urbano. Não fala muito, não se move demais, mas está sempre ali, firme, como se esperasse o toque mágico que ativa a tomada da libido. Em geral, não é sobre prazer partilhado, nem sobre afeto. É sobre uma energia que precisa sair de algum jeito, por qualquer fresta, mesmo que seja a de um cubículo de banheiro público.
Mas calma — essa crônica não é um manifesto moralista, nem uma campanha contra a libido alheia. Longe disso. O desejo é legítimo, lindo, criativo e potente. O problema é quando ele perde o GPS e começa a dar sinal onde não deve. Quando a energia sexual, em vez de virar arte, dança, afeto ou criação, se transforma em gesto apressado e assédio disfarçado de “convite silencioso”.
O poste do desejo, no fundo, é um sintoma. Sintoma de repressão, de solidão, de falta de espaço seguro para ser quem se é. De uma sociedade que empurra muitos homens para as sombras, onde o desejo só pode se manifestar em esquinas escuras ou mictórios mal iluminados. Alguns viraram postes por compulsão. Outros, por hábito. E há os que só conhecem esse modo de se relacionar com o próprio corpo: rápido, escondido, e sem alma.
É curioso (e um pouco triste) como a energia sexual, que poderia estar alimentando sonhos, relações saudáveis, projetos de vida — acaba se esvaindo no azulejo do banheiro, silenciosa e solitária. Não por maldade, mas por desorientação. Por falta de orientação emocional, de escuta, de acolhimento.
Por isso, talvez esteja na hora de criarmos algo além de placas de “favor manter o banheiro limpo”. Quem sabe uma campanha: “Transforme seu fogo em poesia, não em piscadelas no banheiro”. Ou um curso: “Autocuidado e erotismo com dignidade”. Ou até um mantra: “Desejo não é sujeira — é luz, mas precisa de direção.”
Porque, no fim das contas, não queremos apagar a luz do poste. Queremos apenas que ela ilumine os caminhos certos. Que cada homem, poste ou não, descubra que sua energia sexual é sagrada — e que há lugares melhores para acendê-la do que o corredor entre o vaso sanitário e a pia.
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